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Todos os dias, logo após acordar, lavava e enxugava o rosto, antes de escovar os dentes. Mas isso era só uma mania boba, uma dentre tantas outras que não vale a pena citar. Pelo menos não agora. Estava sempre com seu celular moderníssimo checando seus perfis no facebook e twitter. Há um mês excluiu a conta no orkut, mas já estava pensando em voltar. Vivia de impulsos e repulsas. Era como se suas ações pudessem ser as últimas na vida e ela não queria perder tempo fazendo coisas que não gostasse ou desistindo de fazer o que tinha vontade. Tão certo que uma vez teve febre altíssima, mas não cancelou sua viagem a Fortaleza e deu um jeito de curar sua "bobagem de doença" - como ela mesma disse - já na cidade.
Acreditava em Deus, amava poemas e escrevia alguns às escondidas: outra de suas manias. Não tinha mais parentes desde os 22 anos de idade, quando perdeu sua mãe. Hoje, aos 34 pensava em filhos, mas não queria admitir. Uma vez comprou uma roupinha de bebê rosa, foi pra casa e se trancou em seu quarto. Chorou tanto que resolveu parar logo que começou a sentir pena de si mesma. Cris tinha medo de parecer fraca.
Um dia comum de sexta-feira chamou Aline e saíram juntas para um bar. Era um dia tão comum para as duas que a bala que atingiu o peito de Cris jamais era esperada. Ela não era fraca, ela quis reagir. Aline não conseguia acreditar, telefonou, correu, chorou, gritou, socorreu, ajudou, mas nada fez com que Cris ficasse, ela simplesmente se foi. Aline não tinha forças pra procurar culpados. Foi pra casa de Cris, abraçou o travesseiro dela, sentiu saudade a cada lágrima que caia. E cada uma delas só fazia essa saudade crescer e crescer. Adormeceu.
No outro dia, percebeu uma foto das duas na cabeceira de Cris. Sorriu como se não pudesse, mas sorriu. Sabia que a amiga a estimava demais. Começou a olhar as gavetas e encontrou uma pasta cheia de folhas soltas: eram os poemas de Cris. Riu de um deles, achou muito brega. Continuou lendo e descobriu que eles se completavam e que pareciam intencionar um livro. Pensou que a amiga quisesse publicar, mas não se importou. Guardou aquela pasta e pegou a outra que estava embaixo, com a etiqueta "Ela".
Começou a ler poemas apaixonados, muitos deles inclusive ela achou que eram muito bons. Uns mostravam falta de coragem, outros muito amor e tudo fez sentido, quando ela pegou um dos poemas, que estava inacabado e leu em meio às mais doloridas lágrimas:
"Sua pele parece avermelhada como seu cabelo.
Seu sorriso me faz mais feliz e menos quieta.
Nada que eu possa dizer, definiria o que sinto.
Tenho medo de sua reação, de seu afastamento.
É como se eu fosse me perder a cada instante.
É como se eu não soubesse o que fazer a todo momento.
Tenho dúvida,
as palavras vão, mas voltam com consequências
e não sei se suportaria a negação desse sentimento.
Guardo sua amizade, como prova do nosso amor,
que não é todo o que desejo, mas é todo o que posso ter.
Deixo minhas palavras presas me machucarem pra não de perder.
Só queria saber de tuas palavras e de teus sentimentos.
(continuar)"
"Deixo minhas palavras presas me machucarem pra não de perder.
Só queria saber de tuas palavras e de teus sentimentos.
Somos hoje separadas, estamos em prantos e desesperos.
Não sei de palavras como tu,
mas sei de meu sentir
que por ti é, será e sempre foi completo.
Teus medos, sempre foram meus medos
e eles juntos nos impediram de toda uma vida juntas.
Teu amor por mim será meu sempre amor por ti.
Como sempre deveria ter sido.
Com amor, tua ruiva."
As lágrimas vieram e se foram, mas os sentimentos permaneceram entre elas para sempre.
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Teu beijo me diz tudo e depois nada me dizes tu. Te vejo entrar no carro do qual te fiz sair. Sigo tua imagem com os olhos pesados, cheios de lágrimas e esperanças agora vazias até o instante em que desapareces na esquina. As pessoas passam e me olham como se eu não estivesse ali. Humilhado, jogado e perdido no meio de uma multidão que parece feita sem sentimento. Levanto, recolho meu coração junto com a esperança e ponho de volta no lugar, na certeza de que não terei forças de viver sequer um dia mais.
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Tive pena daqueles olhos que desabavam como as fortes chuvas devastadoras. Mas eu podia sentir que seus sentimentos poderiam mudar a qualquer momento. E mais um dia veio chuva, vieram lembranças e se foram os sonhos. E caminhando pelas ruas, encharcando os pedidos de desculpa, sentou-se num banco, chorou e não se esforçou pra secar as lágrimas. Vi quando a chuva parou por uns instante e se levantou, correu um pouco e logo parou em frente à casa dele. Tocou a porta, mas não teve coragem de bater. Ficou assim por alguns breves minutos, sentiu-se impotente, desinteressante e nem um pouco bem. Confundiu as coisas, as pessoas, os nomes e voltou para seu quarto, onde chorou até amanhecer.
Mas, por alguma razão, para ela o dia não amanheceu.
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Pela janela do meu quarto eu vejo cada expressão de arrependimento futura pelas ações impensadas de seus dias de ausência. Também vejo todas as pessoas fazendo guerras por mim de cada lado, não é difícil reconhecer quem me apoia. Apesar de minha prisão ser uma culpa completamente minha, não consigo sair para dizer aos que se voltam contra você. E também pelo gostinho de viver um pouco de maldade e de me sentir um vilão controlador de situações, eu não tenho vontade de que eles saibam o quanto você é importante. É pecado querer que você também sofra um pouco? Claro que é. Mas eu sinto amor nas pessoas que se arriscam nessa chuva por meus motivos. Eu aprendi a amar com eles, apesar de ter aprendido um amor diferente com você. Mas quando o valor que você me dava foi levado embora, eu não resisti em me fazer de vítima. É quase como um jogo, você se faz de vítima pra mim e eu pra milhões de pessoas que me querem perto de qualquer forma.
Tento sustentar as pedras nas mãos do mundo inteiro, mas de alguma forma você vai sofrer só como eu sempre sofri só. É nesse momento que você se abandona, como sempre me abandonou e sente o mal que sempre me fez. É nesse momento que, a cada pedra lançada, uma lágrima parte de mim. Cada lágrima que me seca e me faz duro combina com cada gota de sangue que você derrama. Quem você dizia te amar só chega quando tudo está acabado, mas eu sempre estive contigo. E é isso que quem estava do meu lado vai ver, quando me procurar na minha prisão e ver que de mim só sobrou a matéria que tinha que te deixar.
Fui egoísta, sabia que te acabar, acabaria comigo e foi isso que fiz. Agora somos só nós dois em algum lugar, em qualquer lugar, em todo lugar que não sei dizer onde fica. Agora somos apenas nós dois.
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Não tinha por que razão apontar culpa. Não tinha razão. Só queria voltar a respirar e não esquecer o que havia sido bom, porque o bom foi perfeito. Mas o descaso matava qualquer possibilidade. Depois que os cordões são cortados, não há nó que faça voltar ao início perfeito. Ela não sabia escolher se aturava o nó, ou se jogava fora o outro pedaço do cordão. Respirou, pensou, não havia jeito. O que sentia era muito forte e ela poderia continuar fingindo para, ao menos na sua ilusão, ser feliz.
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Levava sempre com ela um caderno grosso de capa vermelha, onde anotava cada uma de suas perdas. Ônibus, pessoas, oportunidades, empregos, amigos, palavras, lembranças, recordações, imagens, sons, cheiros, músicas. A vida não era fácil para Carina. Todos que viviam perto dela a olhavam com pena, com profunda pena, já que, segundo eles, aquela menina nada tinha. Tudo estava perdido para ela, concluíam.
Carina não pensava assim, apesar de tudo. Às vezes ela até pensava que havia ganhado alguma coisa. O que importava para ela, na verdade, era o fato de estar viva, o que funcionava como um grande presente. Ela corria atrás de tudo que podia, apesar de quase sempre perder alguma coisa. Carina já escrevia seu caderno de perdas número 38, quando percebeu que a vida dela estava baseada em perdas. Um dia, depois de mais uma noite de sono perdida, Carina pegou aquela caixa com seus 38 cadernos e queimou. Viu cada uma de suas perdas ir embora para o esquecimento. Depois de tudo certo, depois de suas perdas virarem cinzas, ela foi à papelaria. Comprou um caderno grosso de capa azul e começou a escrever, a partir daí, o que ela estava passou a ganhar. Não se sabe quantos cadernos ela deve preencher, mas ela está motivada a aproveitar cada um de seus presentes.
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Sei que aquele dia me fez bem, passei a caminhar com um sorriso amarelo, mas pra quem estava sem cores, isso já era um grande sinal de melhora e de princípio de recuperação. Pouco demorou pra minhas cores começarem a aparecer e me fazerem feliz. E sempre quando uma delas retornava, você estava junto a mim. Eu me sentia um livro a ser colorido e você a criança que me dava vida. Quando você preencheu toda minhas linhas com cores variadas (algumas até que eu não conhecia) me dei conta de que eu estava pronto pra abrir o peito e deixar que você visse todos os sentimentos que eu guardei durante todo esse tempo. Você não satisfeito de ter me pintado por completo, depois que te mostrei tudo que guardei, ainda ultrapassou as minhas linhas com mais cores novas e diferentes. Se você me deu cores, eu aprendi que elas servem pra me fazer viver. Se hoje não tenho você, se hoje não tenho cores, hoje não tenho vida, hoje nada tenho.
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Meu coração te falou:
Se eu acordasse e soubesse que eu não poderia te ter nunca mais, eu preferiria não acordar.
Se eu fosse capaz de realizar meus desejos só por minha vontade, a gente estaria mais perto e entrelaçados. Mas sei que de alguma forma eu já entrelacei meu coração ao teu, eu só espero que os dois percebam que são um só e que nunca mais se dividam.
Se eu não posso te fazer muita coisa, eu te mando meu carinho, eu te faço depoimentos e versos e desejos de que estejas sempre bem e comigo. Eu não posso viver sem ver esse sorriso e sem sentir tudo isso que posso sentir e que quero sentir.
Não ando muito afim de acordar disso tudo. Como te falei umas vezes, você é meu motivo, é meu tudinho. E o que eu posso fazer se não quero nada de diferente?
Põe minha cabeça no teu peito, me deixa sentir um pouco mais de tudo isso. Não precisa falar, seja atrapalhado como dizes, porque tua naturalidade me faz bem. Respira fundo e deixa que eu me sinta assim, no teu aconchego. Sou realizado assim.
Te amo.
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Te escrevi diversas palavras secretas em um papel lilás. Não tinha coragem de te entregar, mas no dia seguinte, elas não estavam sobre minha mesa. Não sei como foi possível que sumissem assim sem que eu pudesse, de alguma forma, notar. Pensei que talvez eu não as tivesse escrito de verdade, mas o que acontece é que foi muito verdadeiro pra ser um sonho. Queria te dizer todas as coisas de que sempre tive vergonha. E todas estavam grafadas ali.
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Ao Teu Brilho
Sangra-me com teu brilho,
resplandece em mim toda tua beleza.
Preciso de ti,
porque já não carrego mais comigo
forças para brilhar sozinha.
Tens em tua volta, tudo que se faz paixão,
tudo que te faz beleza.
Devolve minha alegria,
minha admiradora e,
se não me admirar,
me faz crescer,
me faz superar. Não carrego mágoa,
porque te tenho toda noite.
Porque meu peito enche de alegria,
e porque meus olhos transbordam
com todo teu brilho que em ti reluz fascinação.
Sangra-me
porque não me restam
sentimentos suficientes.
Porque todas as vezes
que me tocas com teu brilho,
pareces roubar de mim o que eu já perdi.
Sabes que não me importo,
porque é exatamente quando estou contigo
que me sinto completa.
Amada.
Não me sangre mais.
Ama-me,
porque só tenho a ti,
nas noites quentes
ou nas noites frias.
Deixaste meu dia ocupado,
para que eu não pudesse pensar em mais nada.
Salva-me disso tudo.
Ama-me.
É tudo que te peço.
E sei que sempre que eu precisar,
posso te encontrar,
porque sou completa no teu brilho.
Estava só no seu quarto. Lembrou dos seus ursos de pelúcia. Sentiu saudades. Sua idade não permitia que os mantesse. Não para os outros, mas dentro dele tinha todos em perfeita ordem e perfeitas recordações. Suas preocupações agora eram todas tão diferentes. Era preciso agradar tanta gente pra continuar sobrevivendo. E tudo, no final das contas, não fazia sentido. Um dia esqueceu até de colocar suas músicas favoritas. Pobre rapaz, sonhou com tanto, quis tanto e agora nada mais restava do que vontade e frustração. Pensou em pular, pensou em gritar, mas não pensou num jeito de tentar esquecer. Mas de que adianta esquecer, se certamente todas as perguntas voltariam a martelar uma hora ou outra? Ele talvez não estivesse pronto, mas ele se sentia pronto. Seu maior defeito talvez seja o de ser tão transparente que acaba afastando as pessoas e não saber o que fazer. Às vezes ele pensa em mudar, mas sabe que por mais que se queira, tem mudanças que não se consegue realizar. E mais uma vez sentiu falta dos seus ursos de pelúcia. "Eram os tempos em que certas coisas não me preocupavam." E ele estava certo. Depois desse tempo, não dava pra negar que certos momentos deveriam se encarados. E força é tudo de que ele precisava. Até que sentiu que apenas as suas não eram suficiente. Passou por momentos difíceis, mas ele acredita que superou todos. Ele luta contra esses momentos, mas é inevitável refletir. E às vezes, ele pensa demais. Sua cabeça dói, mas a esperança não passa. E os ursinhos de pelúcia fazem parte de suas boas lembranças, porque sem elas ele é incapaz de continuar.
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e eu chorei. Claro, primeiro eu corri pra bem longe, mas chorei.
Você sabia muito bem que isso aconteceria, por isso sorriu. Pra me machucar e me deixar daquele mesmo jeito que me deixou da última vez: arrasada. Todos me dizem que você não vale uma lágrima. Mas quanto vale uma lágrima? As suas nunca valeram nada. As suas eram sempre da forma mais mentirosa possível. Mas as minhas...
as minhas me valem, porque, junto com cada uma, vai embora um pedaço de mim. E te digo que já não me sobram tantos pedaços.
Se você hoje está bem, espero que continue bem. E bem longe de mim. Não quero ver tua felicidade apesar de desejá-la. Seja feliz, é assim que a gente diz. Espero que seja, mas nunca mais quero ver o teu sorriso, porque foi ao vê-lo que descobri que eu nunca mais vou poder sorrir.
Agora escrevo isso na areia e sei que logo as ondas vão guardar essas minhas palavras. Agora vou pra casa tentar viver. Mas se não conseguir, eu durmo. Só espero não sonhar.
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Ele lhe deu sorrisos, momentos de alegria, sorrisos de felicidade, paz, alguns até sem motivo. Ele era uma boa companhia e uma boa recordação.
Deu também medo, ansiedade, discussões, problemas que eram rapidamente resolvidos, outros que passavam bem mais tempo para se resolverem. Dalva não gostava de pensar que poderia perdê-lo. Sentia prazer em estar com ele, em fazer parte de tanta coisa boa, de tanta coisa proveitosa que acontecia nas suas vidas. A relação deles foi, acima de tudo, construtiva. Não importa o quanto durou, importante é que foi contruído o que precisava ser. E nada, nenhum presente foi mais bem recebido do que todas as lágrimas de aprendizado que nasceram em seus olhos e morreram em seu coração, porque este foi o ponto de recomeço que ela encontrou e foi nele que se apegou para, talvez, até reviver tudo isso. Seu coração já não era mais tão frágil e agora ela se sentia pronta para enfrentar o que viesse.
Presente: Coragem.
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