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Como Almas Gêmeas

Solta um grito desesperado e acelera o passo pelo longo corredor. Abaixa a cabeça, como se não quisesse se fazer ver. Leva as mãos fechadas como se um segredo precisasse ser guardado. Passos rápidos, respiração cortada, forte, ofegante. Corre até o fim e avista a porta. Com os olhos desacostumados com tanta luz, tenta andar e tropeça. Cai. Não precisa de ajuda, ou não quer que percebam. As mãos continuam fechadas. Sangue. Sente como se escapasse sangue de seus dedos. Abre as mãos e percebe que, na verdade, toda dor ainda está guardada e que o sangue é uma sensação. Apenas uma sensação. 
Ergue o olhar, sai pela porta e sente a confusão do mundo de fora. Tanto tempo reclusa, perdeu a noção de tempo, de direção. E o não saber aonde ir é desesperador. Encosta na parede. Respira. Não consegue maquiar o olhar assustado. Sente medo das pessoas porque é como se todos aqueles rostos fossem apenas um. O amor era correspondido, até um final de semana atrás. Até a dor da separação tomar conta e fazer sofrer. Fecha os olhos, respira, sente o mundo de fora e volta lentamente para seu quarto. Vai sofrer um pouco mais, antes de sentir que está pronta. 
Mas sabe ela que, por alguma razão, ele repete todo esse sofrimento. 
Como almas gêmeas.

Cris

Cris: moça morena de beleza indiscutível e de desejos inimagináveis, era como a conheciam. Todos os dias sentava-se naquela praça pra relaxar, pra respirar um pouco por dez ou quinze minutos e chamava a atenção de vários homens, uns mais afoitos que outros. Costumava sair com sua amiga ruiva Aline a bares, restaurantes e confidenciava tudo ou quase tudo a ela. Era daquelas amizades verdadeiras e bonitas que dava gosto de se ver. Cris trabalhava muito, era advogada e não suportava injustiças.
Todos os dias, logo após acordar, lavava e enxugava o rosto, antes de escovar os dentes. Mas isso era só uma mania boba, uma dentre tantas outras que não vale a pena citar. Pelo menos não agora. Estava sempre com seu celular moderníssimo checando seus perfis no facebook e twitter. Há um mês excluiu a conta no orkut, mas já estava pensando em voltar. Vivia de impulsos e repulsas. Era como se suas ações pudessem ser as últimas na vida e ela não queria perder tempo fazendo coisas que não gostasse ou desistindo de fazer o que tinha vontade. Tão certo que uma vez teve febre altíssima, mas não cancelou sua viagem a Fortaleza e deu um jeito de curar sua "bobagem de doença" - como ela mesma disse - já na cidade.
Acreditava em Deus, amava poemas e escrevia alguns às escondidas: outra de suas manias. Não tinha mais parentes desde os 22 anos de idade, quando perdeu sua mãe. Hoje, aos 34 pensava em filhos, mas não queria admitir. Uma vez comprou uma roupinha de bebê rosa, foi pra casa e se trancou em seu quarto. Chorou tanto que resolveu parar logo que começou a sentir pena de si mesma. Cris tinha medo de parecer fraca.
Um dia comum de sexta-feira chamou Aline e saíram juntas para um bar. Era um dia tão comum para as duas que a bala que atingiu o peito de Cris jamais era esperada. Ela não era fraca, ela quis reagir. Aline não conseguia acreditar, telefonou, correu, chorou, gritou, socorreu, ajudou, mas nada fez com que Cris ficasse, ela simplesmente se foi. Aline não tinha forças pra procurar culpados. Foi pra casa de Cris, abraçou o travesseiro dela, sentiu saudade a cada lágrima que caia. E cada uma delas só fazia essa saudade crescer e crescer. Adormeceu.
No outro dia, percebeu uma foto das duas na cabeceira de Cris. Sorriu como se não pudesse, mas sorriu. Sabia que a amiga a estimava demais. Começou a olhar as gavetas e encontrou uma pasta cheia de folhas soltas: eram os poemas de Cris. Riu de um deles, achou muito brega. Continuou lendo e descobriu que eles se completavam e que pareciam intencionar um livro. Pensou que a amiga quisesse publicar, mas não se importou. Guardou aquela pasta e pegou a outra que estava embaixo, com a etiqueta "Ela".
Começou a ler poemas apaixonados, muitos deles inclusive ela achou que eram muito bons. Uns mostravam falta de coragem, outros muito amor e tudo fez sentido, quando ela pegou um dos poemas, que estava inacabado e leu em meio às mais doloridas lágrimas:

"Sua pele parece avermelhada como seu cabelo.
Seu sorriso me faz mais feliz e menos quieta.
Nada que eu possa dizer, definiria o que sinto.

Tenho medo de sua reação, de seu afastamento.
É como se eu fosse me perder a cada instante.
É como se eu não soubesse o que fazer a todo momento.

Tenho dúvida,
as palavras vão, mas voltam com consequências
e não sei se suportaria a negação desse sentimento.

Guardo sua amizade, como prova do nosso amor,
que não é todo o que desejo, mas é todo o que posso ter.

Deixo minhas palavras presas me machucarem pra não de perder.
Só queria saber de tuas palavras e de teus sentimentos.
(continuar)"

Aline não sabia o que fazer, mas pegou esse poema e sabia que era destinado a ela, pois o título era o seu nome. Guardou o papel na bolsa e foi ao momento de despedida. Depois de homenagens de outros amigos, Aline não conseguia falar. Pediu que todos se afastassem e colocou nas mãos de Cris o papel, o poema, aquelas palavras e todo o sentimento. Ficou uns instantes sozinha e leu para a amiga o fim do poema que ela desajeitadamente escreveu.

"Deixo minhas palavras presas me machucarem pra não de perder.
Só queria saber de tuas palavras e de teus sentimentos.

Somos hoje separadas, estamos em prantos e desesperos.
Não sei de palavras como tu,
mas sei de meu sentir
que por ti é, será e sempre foi completo.

Teus medos, sempre foram meus medos
e eles juntos nos impediram de toda uma vida juntas.
Teu amor por mim será meu sempre amor por ti.
Como sempre deveria ter sido.
Com amor, tua ruiva."

As lágrimas vieram e se foram, mas os sentimentos permaneceram entre elas para sempre.

Despedidas

Nas minhas mãos trêmulas e ensanguentadas pulsa o meu frágil coração. Corro pelas ruas com medo que o roubem, esmaguem ou retalhem. Olho para o céu e não enxergo as pessoas pasmas que me olham como se me reprovassem ou me sentissem pena. Escondo quando esbarro e, no desespero, olho para todos os lados. Corro, corro. Paro um minuto com medo de que ele em minhas mãos não pulse mais. Observo, alivio e volto a correr. Estou vivo. Avisto aquela multidão, desespero e busco as minhas possibilidades, meus desvios. Encontro com sufoco uma maneira de respirar e passar pelas pessoas. O sinal fecha, eu paro, eu choro, eu estou perdendo meu norte, meus sinais de vida, eu estou perdendo você. O sinal volta a abrir, tenho medo, por um instante paraliso. Inércia. Sofro por não te ver, não te enxergo, te procuro, meus olhos sofrem, me aproximo, te percebo. Corro mais uma vez. Caio de joelhos em teus pés e com as mãos ainda trêmulas, eu te entrego o coração que arranquei por não saber mais como tomar conta dele sozinho.
Teu beijo me diz tudo e depois nada me dizes tu. Te vejo entrar no carro do qual te fiz sair. Sigo tua imagem com os olhos pesados, cheios de lágrimas e esperanças agora vazias até o instante em que desapareces na esquina. As pessoas passam e me olham como se eu não estivesse ali. Humilhado, jogado e perdido no meio de uma multidão que parece feita sem sentimento. Levanto, recolho meu coração junto com a esperança e ponho de volta no lugar, na certeza de que não terei forças de viver sequer um dia mais.

Conclusão

A chuva desaba do lado de fora de uma janela, mais uma vez. E as lágrimas que caem do seu rosto não são de alegria. Podem ser tristeza prematura, podem ser um amor perdido ou simplesmente um tempo para o qual seus planos não estavam preparados.
Passeando os olhos por fora daquele quarto, pensou que ele poderia chegar, se arriscar no meio da forte chuva e gritar o amor que sentia, mas ele não o fez. Amanheceu, o sol veio clareando não só o dia, mas os passos, o interior e os vislumbres de um amor próprio. Ele não apareceu e nem se expôs por algum tempo, mas em seu coração não havia arrependimento por tanto demonstrar amor.
Tive pena daqueles olhos que desabavam como as fortes chuvas devastadoras. Mas eu podia sentir que seus sentimentos poderiam mudar a qualquer momento. E mais um dia veio chuva, vieram lembranças e se foram os sonhos. E caminhando pelas ruas, encharcando os pedidos de desculpa, sentou-se num banco, chorou e não se esforçou pra secar as lágrimas. Vi quando a chuva parou por uns instante e se levantou, correu um pouco e logo parou em frente à casa dele. Tocou a porta, mas não teve coragem de bater. Ficou assim por alguns breves minutos, sentiu-se impotente, desinteressante e nem um pouco bem. Confundiu as coisas, as pessoas, os nomes e voltou para seu quarto, onde chorou até amanhecer.
Mas, por alguma razão, para ela o dia não amanheceu.

Nós Apenas

Pela janela do meu quarto eu vejo tudo que se passa fora de mim. Pela janela do meu quarto eu vejo todas as coisas que você faz e não tenho coragem de querer admitir. Dentro do meu quarto choro contra o vidro e deixo a chuva correndo do lado de fora. Estou protegido, mas não consigo fazer nada, porque tenho medo de me molhar novamente. E uma vez que meus pés troquem a segurança do meu quarto, eu não saberei o que estou fazendo fora dele.
Pela janela do meu quarto eu vejo cada expressão de arrependimento futura pelas ações impensadas de seus dias de ausência. Também vejo todas as pessoas fazendo guerras por mim de cada lado, não é difícil reconhecer quem me apoia. Apesar de minha prisão ser uma culpa completamente minha, não consigo sair para dizer aos que se voltam contra você. E também pelo gostinho de viver um pouco de maldade e de me sentir um vilão controlador de situações, eu não tenho vontade de que eles saibam o quanto você é importante. É pecado querer que você também sofra um pouco? Claro que é. Mas eu sinto amor nas pessoas que se arriscam nessa chuva por meus motivos. Eu aprendi a amar com eles, apesar de ter aprendido um amor diferente com você. Mas quando o valor que você me dava foi levado embora, eu não resisti em me fazer de vítima. É quase como um jogo, você se faz de vítima pra mim e eu pra milhões de pessoas que me querem perto de qualquer forma.
Tento sustentar as pedras nas mãos do mundo inteiro, mas de alguma forma você vai sofrer só como eu sempre sofri só. É nesse momento que você se abandona, como sempre me abandonou e sente o mal que sempre me fez. É nesse momento que, a cada pedra lançada, uma lágrima parte de mim. Cada lágrima que me seca e me faz duro combina com cada gota de sangue que você derrama. Quem você dizia te amar só chega quando tudo está acabado, mas eu sempre estive contigo. E é isso que quem estava do meu lado vai ver, quando me procurar na minha prisão e ver que de mim só sobrou a matéria que tinha que te deixar.
Fui egoísta, sabia que te acabar, acabaria comigo e foi isso que fiz. Agora somos só nós dois em algum lugar, em qualquer lugar, em todo lugar que não sei dizer onde fica. Agora somos apenas nós dois.

Desimportância

Por querer fazer diferente, ele tem uma razão. Discursou suas vontades e tentou fazê-la acreditar que tudo estava normal. Ela acreditou. Ou na realidade, fingiu acreditar para evitar mais desgate, pra evitar que todas as noites de lágrimas em claro voltassem. E o peito apertou, porque não conseguia viver sem verdade, não conseguia viver sabendo que estava se enganando. Ela começou a fazer planos, queria salvar tudo que ainda pudesse: o que não valia pra essa relação.
Enganou-se por mais tanto tempo que não sabia se merecia ou não o que estava passando. Ela gostava de sentir que tudo fazia mal, porque ao menos ela sentia que ainda se importava. E porque querer sempre tanto retorno? Ela era carente, estava mais carente que nunca e ninguém conseguiria adivinhar metade dos medos que estava sentindo, medos que não confessava pra ninguém, medos que apenas uma pessoa conseguiria desfazer com um pouco de conversa, medos que esse alguém nem sabiam que existiam e, pra ela, na realidade, parecia que o que quer que ela sentisse não fazia mais diferença alguma. Não gostava de ser ignorada, mas fazia de tudo pra não cair em certas armadilhas. Sabia ela que a desistência de uma luta de muito tempo estava chegando à porta, mas não sabia se deveria esperar as palavras ou tomar a atitude. Tinha medo de ser precipitada. Tinha medo, como sempre. Estava cansada de viver com medo. Estava cansada de sentir que não era mais suficiente, enquanto nada mais poderia ser suficiente para ela.
Não tinha por que razão apontar culpa. Não tinha razão. Só queria voltar a respirar e não esquecer o que havia sido bom, porque o bom foi perfeito. Mas o descaso matava qualquer possibilidade. Depois que os cordões são cortados, não há nó que faça voltar ao início perfeito. Ela não sabia escolher se aturava o nó, ou se jogava fora o outro pedaço do cordão. Respirou, pensou, não havia jeito. O que sentia era muito forte e ela poderia continuar fingindo para, ao menos na sua ilusão, ser feliz.

Conto de Espera

Corri pela casa imperceptivelmente com as lágrimas pesando nos olhos já cansados de derramar solidão. O medo de que fosse percebido pelos habitantes do mundo era maior do que qualquer coisa. Numa das maiores e mais difíceis tarefas da vida consegui enxugar e estancar o sofrimento que vibrava em meus lábios. Deus sabe o que faz, sempre me disseram, respirei. Os sorrisos murcharam como flores e foram todos pisoteados como se nunca tivessem existido. Não queria sentir isso e não desejo a ninguém. Depois do desabafo e das palavras de confiança adormeci e sonhei. Sonhei com um futuro que se ajeitava e realizava todos os sonhos e, logo depois, com um futuro perdido e sem direção. Acordei como se tivesse perdido os meus motivos e, por algum tempo, em mim, sei que estão todos perdidos. As palavras e a ânsia de saber desgastaram uma sintonia que parecia nunca poder ser tocada. Acompanhando os sabores amargos, a dúvida do que aguarda cada futuro nascer do sol. Cada sorriso será capaz de voltar? O aguardo é o que mais doi e é o tempo que vai dizer. Sempre o irônico tempo. Espero que ele não faça lentos avanços pra mim. Preciso voltar a viver.

Pela Música

Antônio era um velho homem que vivia de música. Acordava com o canto dos pássaros, respirava notas musicais e sempre fechava os olhos à procura de um pouco de música para aliviar seu coração cansado de cantar tristes melodias. Como não se podia esperar diferente, seu coração vivia de música. Ela era o alimento de uma vida feliz, de uma vida que esperava se entregar a cada fragmento de música que via em todos os lugares. Para Antônio, nem tudo era festa, mas tudo era música. Nem sempre doce, nem sempre dramática, nem sempre de uma única maneira, mas sempre com um pedaço de vida carregado. "Nunca deixe de sonhar" era o que ele sempre pensava. A maioria das pessoas pensava que ele não deveria acreditar tanto, elas não acreditavam nele. Mas ele sabia que era seu papel acreditar em si mesmo, já que ninguém mais o fazia. Só ele poderia realizar os seus sonhos, só ele poderia ser o senhor de tudo que desejava e que sabia que poderia alcançar. Continuou a viver por muito tempo, continuou a cantar tristezas e alegrias. Realizou grandes desejos mas também se frustrou bastante outras vezes. Chorou em músicas que fizeram muitas outras pessoas chorarem junto. Gargalhou e foi feliz em canções que trouxeram milhões de aplausos, milhões de sorrisos e lágrimas de crença e satisfação. Ele chegou onde queria e passou a desejar mais. Não era fantasia, eram sonhos que se realizavam. Antônio estava no auge, sabia que tudo estava sendo realizado da melhor maneira. Seu coração mais do que nunca era o reflexo de sua vida, de sua música, de seus maiores e mais inalcançáveis desejos. Um dia, quando foi dormir, Antônio fechou os olhos e a música parou.

Nem Sempre Perdas

Carina estava acostumada a perder. Antes de nascer, já havia perdido seus avós. No parto, perdeu sua mãe. Tentando esquecer ou lutar contra as lembranças de todas as menores perdas, perdeu noites e noites de sono. No colégio, perdeu o namorado para sua melhor amiga. Num acidente, perdeu seu pai. Numa cirurgia, perdeu muito sangue. Numa aposta, perdeu dinheiro. Estava cansada de se acostumar. Por se achar inferior e, muitas vezes, insuportavelmente, sem sorte, perdeu amigos, perdeu familiares. Algumas vezes se perdeu e riu, por achar uma ironia.
Levava sempre com ela um caderno grosso de capa vermelha, onde anotava cada uma de suas perdas. Ônibus, pessoas, oportunidades, empregos, amigos, palavras, lembranças, recordações, imagens, sons, cheiros, músicas. A vida não era fácil para Carina. Todos que viviam perto dela a olhavam com pena, com profunda pena, já que, segundo eles, aquela menina nada tinha. Tudo estava perdido para ela, concluíam.
Carina não pensava assim, apesar de tudo. Às vezes ela até pensava que havia ganhado alguma coisa. O que importava para ela, na verdade, era o fato de estar viva, o que funcionava como um grande presente. Ela corria atrás de tudo que podia, apesar de quase sempre perder alguma coisa. Carina já escrevia seu caderno de perdas número 38, quando percebeu que a vida dela estava baseada em perdas. Um dia, depois de mais uma noite de sono perdida, Carina pegou aquela caixa com seus 38 cadernos e queimou. Viu cada uma de suas perdas ir embora para o esquecimento. Depois de tudo certo, depois de suas perdas virarem cinzas, ela foi à papelaria. Comprou um caderno grosso de capa azul e começou a escrever, a partir daí, o que ela estava passou a ganhar. Não se sabe quantos cadernos ela deve preencher, mas ela está motivada a aproveitar cada um de seus presentes.

Sobre Colorir

Minha vida andava tão acizentada. Meu trajeto completamente nublado e, claro, sem brilho. Aquela oscilação de vida e morte me deixava completamente exausto e angustiado e eu não tinha como aprender a conviver com aquilo. Ganhar e perder estão tão próximos quanto estar ou não estar, quanto ser ou não ser. Tantos momentos de cor na minha vida não pareciam ter razão naquele momento no qual você me encontrou. Se naquele instante minha cabeça baixa denunciava a minha falta de cor. Certamente que sim, porque eu não sei não ser verdadeiro, então eu preciso transparecer. E pra que viver se não for na transparência. Não gosto de esconder minha felicidade, então pra que esconder também a tristeza? Realmente eu não preciso. Eu não retenho glórias, pois sei que meus fracassos não vão ficar pra sempre escondidos em um porão escuro. Não tenho motivos pra camuflar minhas perdas, se pra todo meu ganho eu mostro a minha alegria em topos de pódios.
E você me encontrou no meu estado nublado de falta de cores, de precisões e de necessidades. Você me encontrou na minha primeira lágrima de exaustão, quando todas as lágrimas de desilusão e angústia já haviam sido gastas. Reflita o bem que me fez aquele sorriso que me jogou na face. De alguma forma, eu estive iluminado e reluzente. Senti o gelo no coração trincar e batidas fortes quase me abriram o peito, mas não literalmente. Só que abrir o peito no primeiro brilho de um olhar não é mais parte do que eu hoje sou. Senti uma réstia de luz confundir o que vinha em meus pensamentos até aquele momento. A confusão me queria fazer escolher entre viver e morrer, mas eu decidi esperar. Teus olhos me confortavam e me prometiam mais conforto, tuas mãos me prometiam um aconchego sem tamanho. Minha vulnerabilidade tentava forçar com que eu me jogasse em teu abraço e ali ficasse até meu sangue estar quente e novamente circulante. Não sei como resisti, mas esperar era tudo que eu tinha que fazer, para meu próprio bem.
Sei que aquele dia me fez bem, passei a caminhar com um sorriso amarelo, mas pra quem estava sem cores, isso já era um grande sinal de melhora e de princípio de recuperação. Pouco demorou pra minhas cores começarem a aparecer e me fazerem feliz. E sempre quando uma delas retornava, você estava junto a mim. Eu me sentia um livro a ser colorido e você a criança que me dava vida. Quando você preencheu toda minhas linhas com cores variadas (algumas até que eu não conhecia) me dei conta de que eu estava pronto pra abrir o peito e deixar que você visse todos os sentimentos que eu guardei durante todo esse tempo. Você não satisfeito de ter me pintado por completo, depois que te mostrei tudo que guardei, ainda ultrapassou as minhas linhas com mais cores novas e diferentes. Se você me deu cores, eu aprendi que elas servem pra me fazer viver. Se hoje não tenho você, se hoje não tenho cores, hoje não tenho vida, hoje nada tenho.

Retalhos de Carinho 2

Estava pensando e refletindo sobre amar. Ele não conseguia fixar o pensamento em palavras bonitas, e nem sabia o que dizer. Resolveu escrever, porque assim ele sabia se libertar e mostrar tudo que parecia oculto, mas que todo mundo sabia que não era e nunca vai ser.

Meu coração te falou:

Se eu acordasse e soubesse que eu não poderia te ter nunca mais, eu preferiria não acordar.

Se eu fosse capaz de realizar meus desejos só por minha vontade, a gente estaria mais perto e entrelaçados. Mas sei que de alguma forma eu já entrelacei meu coração ao teu, eu só espero que os dois percebam que são um só e que nunca mais se dividam.

Se eu não posso te fazer muita coisa, eu te mando meu carinho, eu te faço depoimentos e versos e desejos de que estejas sempre bem e comigo. Eu não posso viver sem ver esse sorriso e sem sentir tudo isso que posso sentir e que quero sentir.

Não ando muito afim de acordar disso tudo. Como te falei umas vezes, você é meu motivo, é meu tudinho. E o que eu posso fazer se não quero nada de diferente?

Põe minha cabeça no teu peito, me deixa sentir um pouco mais de tudo isso. Não precisa falar, seja atrapalhado como dizes, porque tua naturalidade me faz bem. Respira fundo e deixa que eu me sinta assim, no teu aconchego. Sou realizado assim.

Te amo.

Beijou aquele papel colorido e guardou-o na gaveta, as palavras guardou na ponta da língua e o amor, no coração.

Sobre Sentir

Ela levantou cedo da cama, foi atrás de um papel que estava em sua mesinha. Não havia conseguido dormir direito pensando em como terminaria aquela carta que estava escrevendo. Mas o papel lilás no qual escreveu tudo não estava mais lá. Procurou por todos os lugares, não encontrou. Desapontada, pegou um caderno e escreveu:

Te escrevi diversas palavras secretas em um papel lilás. Não tinha coragem de te entregar, mas no dia seguinte, elas não estavam sobre minha mesa. Não sei como foi possível que sumissem assim sem que eu pudesse, de alguma forma, notar. Pensei que talvez eu não as tivesse escrito de verdade, mas o que acontece é que foi muito verdadeiro pra ser um sonho. Queria te dizer todas as coisas de que sempre tive vergonha. E todas estavam grafadas ali.
Não tenho mais vergonha de te dizer tanta coisa. A gente acostuma e até se sente à vontade pra tudo. Disse eu em meu papel lilás que toda distância é insignificante, quando se tem aquele coração absolutamente entregue a todos os sentimentos que pulsam em cada momento que ele bate. Em cada gota de sangue que passeia por cada uma de minhas veias. Não tenho vergonha, porque tê-la é como se eu não me importasse com todo sorriso e carinho que você me deu e me dá todos os dias. É como se cada atitude sua pra mim não fosse importante. E não assim, porque, se você respira, já é importante pra mim.
Me veja naquela lua que você me mandou ver e que eu não consegui, mas que sabia que apareceria para mim. Me veja em todo espelho que você olhar, porque eu sei que reflito um pedacinho que seja de sorriso em você. Me veja em toda esquina, em cada pensamento. Feche os olhos e me veja te falando tudo que nunca tive coragem. Saiba que tenho coragem de te dizer o que sinto, porque sinto e sei que é uma porção do que me faz viver. E não importa que seja pela boca, ou por papéis lilazes, verdes ou amarelos, o que se sente deve ser completamente dito, completamente demonstrado, completamente sentido. O papel eu sei que não vou mais encontrar, mas não preciso, porque encontrei você.
E eu só queria te dizer que eu sinto que vou te amar até a minha última diástole.

Maria e a Lua

Toda noite Maria costumava sentar-se na areia da praia e gastar um bom tempo admirando a lua. Nesses momentos, ela deixava todo estresse, todo corre-corre de sempre, pra parar e admirar. De uma certa forma, ela também sentia que estava sendo admirada e isso a deixava muito confortável e confiante. Ela sempre levava seu caderninho, no qual fazia várias anotações, refletia, no fim das contas era um bom companheiro. Com certeza, seriam duas das coisas sem as quais não conseguiria viver. Admirar e ser admirada pela lua todas as noites e seu caderno companheiro de anotações e pensamentos. Em um desses dias, Maria foi, como sempre, sentou na areia da praia e começou a fazer anotações. Sorria pra lua e sabia que essa também sorria pra ela. Então ela escreveu em tinta vermelha.

Ao Teu Brilho

Sangra-me com teu brilho,
resplandece em mim toda tua beleza.
Preciso de ti,
porque já não carrego mais comigo
forças para brilhar sozinha.
Tens em tua volta, tudo que se faz paixão,
tudo que te faz beleza.
Devolve minha alegria,
minha admiradora e,
se não me admirar,
me faz crescer,
me faz superar. Não carrego mágoa,
porque te tenho toda noite.
Porque meu peito enche de alegria,
e porque meus olhos transbordam
com todo teu brilho que em ti reluz fascinação.

Sangra-me
porque não me restam
sentimentos suficientes.
Porque todas as vezes
que me tocas com teu brilho,
pareces roubar de mim o que eu já perdi.
Sabes que não me importo,
porque é exatamente quando estou contigo
que me sinto completa.
Amada.

Não me sangre mais.
Ama-me,
porque só tenho a ti,
nas noites quentes
ou nas noites frias.
Deixaste meu dia ocupado,
para que eu não pudesse pensar em mais nada.
Salva-me disso tudo.
Ama-me.
É tudo que te peço.
E sei que sempre que eu precisar,
posso te encontrar,
porque sou completa no teu brilho.

Maria escreveu essas palavras e se correu até o mar. Queria se sentir pura. Mergulhou e voltou para sua rotina. Continuava a visitar a lua todas as noites, em qualquer lugar que fosse. Era fiel a ela e não restava dúvidas de seu amor incondicional. Pensava até em morrer e se tornar uma estrela, para estar mais perto dela. Permaneceu no amor até que um dia a lua não apareceu. Quis esperar mais, mais vinte minutos, mais cinco minutos, até que não suportou e resolver ir embora. Sentiu-se triste, sentiu-se sem amor, sentiu o que nunca quis: a solidão, o abandono. Andou pela praia muito tempo, até que caiu, chorando, soluçando de tristeza e adormeceu. Acordou com um toque, o sol já brilhava, fazia arder todas as suas feridas ainda mais. Teve dificuldade em abrir os olhos, mas, ao olhar nos olhos de quem a tocou, percebeu que aquele brilho era único. Maria reconheceu o brilho da lua, nos olhos do moço e permaneceu no amor.

Os Ursinhos de Pelúcia

Estava só no seu quarto. Lembrou dos seus ursos de pelúcia. Sentiu saudades. Sua idade não permitia que os mantesse. Não para os outros, mas dentro dele tinha todos em perfeita ordem e perfeitas recordações. Suas preocupações agora eram todas tão diferentes. Era preciso agradar tanta gente pra continuar sobrevivendo. E tudo, no final das contas, não fazia sentido. Um dia esqueceu até de colocar suas músicas favoritas. Pobre rapaz, sonhou com tanto, quis tanto e agora nada mais restava do que vontade e frustração. Pensou em pular, pensou em gritar, mas não pensou num jeito de tentar esquecer. Mas de que adianta esquecer, se certamente todas as perguntas voltariam a martelar uma hora ou outra? Ele talvez não estivesse pronto, mas ele se sentia pronto. Seu maior defeito talvez seja o de ser tão transparente que acaba afastando as pessoas e não saber o que fazer. Às vezes ele pensa em mudar, mas sabe que por mais que se queira, tem mudanças que não se consegue realizar. E mais uma vez sentiu falta dos seus ursos de pelúcia. "Eram os tempos em que certas coisas não me preocupavam." E ele estava certo. Depois desse tempo, não dava pra negar que certos momentos deveriam se encarados. E força é tudo de que ele precisava. Até que sentiu que apenas as suas não eram suficiente. Passou por momentos difíceis, mas ele acredita que superou todos. Ele luta contra esses momentos, mas é inevitável refletir. E às vezes, ele pensa demais. Sua cabeça dói, mas a esperança não passa. E os ursinhos de pelúcia fazem parte de suas boas lembranças, porque sem elas ele é incapaz de continuar.

Manchas

Deram-me algumas receitas de como retirar manchas. Testei uma delas, mas aquela mancha, sinceramente, não parecia querer sair de minha pele. Por mais que lavasse, por mais que fizesse o que achava que precisava fazer, ela não me deixava. Percebi que podia conviver com ela. Até que apareceu outra mancha. E ela parecia competir com a outra. Não tive dúvidas, tentei me livrar da segunda, até porque já havia me acostumado com a primeira. Depois de tanto tentar, consegui me livrar da segunda mancha. Tempo. Não queria mais mancha nenhuma e com muito esforço - porque costume te impede de tentar mudar - me livrei também dessa primeira mancha. E me senti livre, me senti enfim feliz. Outras foram aparecendo de leve, mas eu tinha várias receitas de como me livrar delas. E conseguia me livrar de todas, às vezes uma demorava mais que alguma outras, mas nunca permaneceram por muito tempo. É, mais tempo. Senti falta, nenhum mancha mais queria se aproximar de mim. Não queria costume, queria ser feliz. E sei que algum dia, surgiu de volta aquela segunda mancha. Eu estava feliz com ela. Sempre senti falta e nunca quis acreditar que sentiria. E agora ela estava lá. De volta. E eu também, de volta.

Pausa

Ela amava profundamente. Todas as forças, todas as lágrimas, toda sua fé, tudo foi depositado aqui. Numa relação sem base, nada do que era depositado permanecia Ela era quem mais sofria, ela tentava de todas as maneiras ser perfeita, ideal. Chorava escondida por não aguentar mais se humilhar num lugar onde ela não cabia. E tudo isso porque amava profundamente. Todos os dias deixava as lágrimas fazerem sua parte, o que ela achava necessário para dar certo. Acontece que na realidade ela não tinha como saber o que poderia, o que deveria dar certo. Ela se esforçava e seu sofrimento vinha por crer sem acreditar. Não adiantavam os discursos de "dê a volta por cima". E ela se transformava numa pessoa ridícula para seus "amigos". E o que essa mulher sofria, ninguém tinha noção. Acontece que ele não existia mais. Ele não era o que ela acreditava e não havia formas de voltar. E ela preferia sofrer. Até que ela resolveu encontrá-lo, preferindo não sofrer, mas não conseguiu, porque amava profundamente, mas na superficialidade. Sem maiores sofrimentos, as coisas mudaram. Ontem: sofrimento descabido. Hoje: pausa para viver.

A Saia Rosa

Carlinha ganhou de aniversário de 8 anos uma saia rosa. A princípio, ela não havia gostado do presente. "Ah, mãe, eu não gosto tanto assim de rosa". Mas a sua mãe de alguma forma sabia que esse presente seria muito importante para a menina. E foi verdade: essa saia praticamente representou a infância de Carlinha. Em todas as fotos, em todas as recordações boas de sua infância estava a saia rosa no meio. Ela passou a perceber que essa saia só a daria boas recordações dessa época. Usava para se encontrar com tantos amigos, receber milhões de sorrisos, a saia era praticamente uma companheira.
Mas chegou a hora em que a saia não coube mais. E isso não a deixou tão triste quanto pensava que iria ficar, porque as recordações para ela não faziam parte do passado. Juntava cada uma pra ir construindo o seu futuro. O futuro parecia cada vez mais que seria bem sucedido. Ela sabia que muita coisa a fez chegar onde estava. Não se considerava mais tão feliz. Mas a saia rosa é hoje a única peça de roupa da qual Carla não quer se desfazer, por um único motivo: a saia a representa e a faz perceber que ela já foi extremamente feliz. E é ao pensar nisso que ela sempre encontra motivos pra sorrir.

Recém Abandonada

É, eu havia sido avisada de que você estaria lá. Mas eu queria bancar a forte. Não porque eu já era, mas porque gostaria de já ser. Você olhou pra mim e sorriu
e eu chorei. Claro, primeiro eu corri pra bem longe, mas chorei.
Você sabia muito bem que isso aconteceria, por isso sorriu. Pra me machucar e me deixar daquele mesmo jeito que me deixou da última vez: arrasada. Todos me dizem que você não vale uma lágrima. Mas quanto vale uma lágrima? As suas nunca valeram nada. As suas eram sempre da forma mais mentirosa possível. Mas as minhas...
as minhas me valem, porque, junto com cada uma, vai embora um pedaço de mim. E te digo que já não me sobram tantos pedaços.
Se você hoje está bem, espero que continue bem. E bem longe de mim. Não quero ver tua felicidade apesar de desejá-la. Seja feliz, é assim que a gente diz. Espero que seja, mas nunca mais quero ver o teu sorriso, porque foi ao vê-lo que descobri que eu nunca mais vou poder sorrir.
Agora escrevo isso na areia e sei que logo as ondas vão guardar essas minhas palavras. Agora vou pra casa tentar viver. Mas se não conseguir, eu durmo. Só espero não sonhar.

Dos Presentes de Dalva

Dalva recebeu dele vários presentes. Não eram joias, vestidos ou quaisquer outras coisas de grande valor material. Eram momentos, sentimentos, sensações que, para ela, enriqueciam mais que qualquer outro presente.
Ele lhe deu sorrisos, momentos de alegria, sorrisos de felicidade, paz, alguns até sem motivo. Ele era uma boa companhia e uma boa recordação.
Deu também medo, ansiedade, discussões, problemas que eram rapidamente resolvidos, outros que passavam bem mais tempo para se resolverem. Dalva não gostava de pensar que poderia perdê-lo. Sentia prazer em estar com ele, em fazer parte de tanta coisa boa, de tanta coisa proveitosa que acontecia nas suas vidas. A relação deles foi, acima de tudo, construtiva. Não importa o quanto durou, importante é que foi contruído o que precisava ser. E nada, nenhum presente foi mais bem recebido do que todas as lágrimas de aprendizado que nasceram em seus olhos e morreram em seu coração, porque este foi o ponto de recomeço que ela encontrou e foi nele que se apegou para, talvez, até reviver tudo isso. Seu coração já não era mais tão frágil e agora ela se sentia pronta para enfrentar o que viesse.
Presente: Coragem.

Meu Sorriso

Eu a via com todo aquele sorriso. Sempre sonhei com carros, casas, com um sorvete de pavê, um brigadeiro, um bem-casado, um seja lá o que for. Neste momento, só queria ser capaz de sorrir. A dor me vinha de todos os lados e me fazia cair, cair e cair. Eu era a única pessoa que já havia passado do chão. E não era poço, e não era nada além de mim. Meus sonhos todos guardados. Minhas lembranças, minhas ideias, meus pesares, minha tristeza, melancolia, desespero, alegria tímida, tudo se misturava em um só sentimento que só me dava agonia. Eu não sabia como ser tudo ao mesmo tempo, eu preciso sentir tudo isso, mas aos poucos. Todas as lágrimas que deixei cair se transformaram em sabe-se lá o que. Só queria sorrir, mas era impossível. E ela ali, na minha frente sorrindo o melhor do mundo. Ela acabava de chegar na minha vida, ela acabava de chegar ao mundo. Nada sabia sobre o que teria que encarar. Ela sorria docemente. Giovana, era esse o nome que ela queria que a nossa menina tivesse. Mas não ficou pra ver nossa Giovana sorrir. E ela sorriu por muito tempo, eu sempre quis retribuir. Tentei, cheguei a esboçar algo parecido, ela parecia até comemorar meio que inconscientemente. Giovana era meu sorriso que foi embora. As lembranças de tudo que foi vivido não me deixavam ser feliz. Pobre Giovana, não tinha culpa. Mas eu não tive tempo. Amei e perdi.

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