Tão Longe, Tão Perto

E de sentir o bater no peito mudar
um sorriso surge diferente.
Revisito os dias de dor
pra saber como não repetir.

É uma saudade de um abraço pouco dado,
mas intensamente sentido.
E com todo sentido.

São os olhos que beijam.
É o corpo do perfeito encaixe.
É a combinação instantânea.
É um nascer que não se pretendia,
é a surpresa de se ter maravilha naquele inesperado sorriso.

É o medo de deixar acontecer,
é o espaço que não se mede,
é a vontade de puxar pra perto
como uma garrafa da mais deliciosa bebida,
como um pedaço do melhor doce.

É o desejo de ter ao redor o que se afastou,
mas que parece pertencer até muitos futuros dias.

É o medo de admitir um sentimento,
mas é principalmente a felicidade
de deixar o coração bater como se fosse novo.

Brilho dos Meus Olhos

Brilho dos meus olhos,
é como deveria te chamar.
É dessa maneira que sinto
esse sentimento estranho me envolver
e tentar dominar.

Pelas feridas passadas,
vou me permitindo aos poucos.
Controlo as expressões de grande entusiasmo
e ao me isolar
deixo vários sorrisos rolarem e me encherem de felicidade,
enquanto te faço passear em meu pensamento.

Se algo está nascendo,
que seja pra me fazer feliz,
que seja pra renovar os meus íntimos ares.
Se um dia eu voltar a sorrir como costumava ser,
que seja porque toda felicidade guardadinha em mim reflete para o mundo,
por ser você
o brilho dos meus olhos.

A Droga de Viver

Quer se morrer no instante em que se foi dito o não.
Mas tudo que é próximo te diz pra ser forte e prosseguir,
enquanto se tranca no quarto e chora.

Desaba-se e desabafa-se com tanta frequência,
que é quase impossível acreditar
que um amor pode causar tamanho abismo interior.

Agarrando-se ao travesseiro que parece renomeado de esperança,
encharcado já em lágrimas de solidão,
à espera de um arrependimento,
de umas doses de caridade.

E a certeza de como somos baixos e egoístas ao sofrer.
Aponto isso como um direito.

As forças que equilibram o corpo parecem correr direto para o coração,
para ajudá-lo a superar,
enquanto faz todo corpo arder em tristeza e saudade.

A parte mais fragilizada recebe toda a força de que precisa para superar
e todo o resto acaba por não se sustentar.
Isso significa perder o chão.

E, por falar em perdas,
cada lágrima que vai não é,
infelizmente,
uma memória que se apaga.
Talvez, felizmente.

E o conselho que vem é que se precisa viver.

É uma pena ser um conselho tão correto e tão difícil.
Perde-se a segurança, a confiança e o desejo.
Os olhos apagam aos poucos, até o limite.
O corpo sente a falta de liberdade no rosto e no sorriso,
e tenta voltar a sorrir,
as memórias começam a se distanciar,
o coração vai fortalecendo e devolvendo a força que equilibra o corpo de pé.

O chão volta a aparecer
e descobrimos a droga de viver,
quando percebemos que isso é um ciclo
que sempre volta a se repetir.

Pela proteção que me dou

perco o mundo ao redor e costumo não arrepender.

Ações falhas, escassas,
na verdade, nenhuma delas.

Apenas sonhos de "algo adiante"
e um longo aguardar de medo e ansiedade.
Exposição como medo contínuo de toda uma vida.
É sentir falta e não ter coragem.
É um "se guardar" covarde.

Proteção que cria barreiras,
que bate a face duas, três vezes.

É o não aprendizado,
a não transparência.

É o "serei" sem se ser.
É o "farei" sem que se faça.

Reflexo dos olhos ao mundo
por dentro de uma alma chorosa.

É o grito mudo daquela revolução que se quer pra si,
mas que nunca foi vista em guerra.

Como Almas Gêmeas

Solta um grito desesperado e acelera o passo pelo longo corredor. Abaixa a cabeça, como se não quisesse se fazer ver. Leva as mãos fechadas como se um segredo precisasse ser guardado. Passos rápidos, respiração cortada, forte, ofegante. Corre até o fim e avista a porta. Com os olhos desacostumados com tanta luz, tenta andar e tropeça. Cai. Não precisa de ajuda, ou não quer que percebam. As mãos continuam fechadas. Sangue. Sente como se escapasse sangue de seus dedos. Abre as mãos e percebe que, na verdade, toda dor ainda está guardada e que o sangue é uma sensação. Apenas uma sensação. 
Ergue o olhar, sai pela porta e sente a confusão do mundo de fora. Tanto tempo reclusa, perdeu a noção de tempo, de direção. E o não saber aonde ir é desesperador. Encosta na parede. Respira. Não consegue maquiar o olhar assustado. Sente medo das pessoas porque é como se todos aqueles rostos fossem apenas um. O amor era correspondido, até um final de semana atrás. Até a dor da separação tomar conta e fazer sofrer. Fecha os olhos, respira, sente o mundo de fora e volta lentamente para seu quarto. Vai sofrer um pouco mais, antes de sentir que está pronta. 
Mas sabe ela que, por alguma razão, ele repete todo esse sofrimento. 
Como almas gêmeas.

Ciclo da Raiva

Raiva que mata,
que fere,
que rasga,
que rompe,
que faz sumir, esvaecer.

Raivas são delírios,
impulsos ou até mesmo uma parte de um ato ensaiado.
Inteiramente premeditado.

Minha raiva é doce e simples,
como raiva de ter raiva.
E, por outras vezes,
raiva de não tê-la.

Dissipa, despe de tudo e de toda ela se veste.
Deforma o bom,
embaça,
faz acabar prantos de formas não convencionais.

Faz não enxergar.
Querer exageros,
extremos por vezes violentos.

E basta um descanso
para perceber-se equivocada.
Envergonha-se.
Desculpa-se.
Compõe-se.

E segue em frente, por fim,
até quando todo o ciclo reinicia.
Numa raiva que mata, que fere, que rasga.

Ame Além

Amor é pra ser dividido. O espaço pra guardar amor é um caixinha bem pequenininha que fica num cantinho do coração. Que é pra a gente não prender, que é pra a gente não guardar.
E quando o amor acaba?
Imagine todo amor do mundo que você tem por alguém (ou teve), precisando ser guardado e voltar pra essa caixinha mínima. O fato é que ele não cabe de volta. E de forma alguma poderia ser guardado. Então a gente sofre, porque aquele amor todo fica passeando por dentro, trazendo lembranças e fazendo doer. Então sobram duas opções: ou você sofre ou deixa que o outro leve aquele amor.
E se é pelo bem, permita que esse amor vá, que te deixe.
Fale. Ou grite! Mas dê passagem ao sentimento que não pode ser preso.
Ame além.
De outras maneiras.
Em outros espaços geográficos.

Não se conforte com o amor para dois que completa seu ciclo em você mesmo.

Não se contente.
Ame além.
Sofra se preciso, não esqueça, guarde memórias, flores, recados, palavras de profundo sentimento.
Mas não deixe que machuque mais do que deve - se é que deve machucar.
Respire,
reaja,
sorria,
e não se livre daquela caixinha em seu coração que produz amor sem aceitar devoluções.
Espalhe.
Ame além.

Guarde Todo Amor

Se chamam de amor o que vivi,
o futuro tem que me dar mais
por merecimento.
Às vezes é comum pensar que amor é fácil de se classificar,
nomear, representar, traduzir, entre tantos outros verbos.

Uns o chamam de difícil, complicado,
outros já acham que, se não vem fácil, não é amor.
Precisaria ele apenas acontecer?
À primeira vista?
De supetão?
No susto?
Ou o certo é edificá-lo aos poucos?
Passando todas dificuldades consideradas necessárias?

A questão é que o amor não é previsível.
O momento que o desperta é um segundo,
fica pela conta de cada um como alimentar a expectativa - ou não -
desse único segundo que bagunça tudo.

Na mais que humilde opinião que dou,
o interesse para o amor pode acontecer
à primeira vista,
de supetão,
no susto.
Mas a sua fortaleza só vem depois que tanto se colocar em limites
e querer continuar por ele,
mas não precisamos de batalhas sangrentas.

Faz pelo amor o que ele merece
sem empecilhos ou bloqueios.
Entrega tua alma, todo teu desejo.
E ama.
O amor pode ser despertado em um segundo
e de alguma forma ele é alimentado, cultivado.

E a partir do momento que seu próprio conceito é dúbio,
alcançá-lo é um feito glorioso.

Então guarde todo amor.
Não permita que ele desaconteça.

Mais Uma Vez

Ele pensa pra fazer e faz pra poder pensar,
porque sente não ter obrigação de fazer sempre da mesma maneira.

Ele senta pra descansar, ele para pra ouvir.
Ele corre pra chegar, ele chora pra libertar,
mas chora escondido.

Ele ouve pra passar o tempo, ele teima pra alcançar.
Ele dança pra viver, ele fala pra valer a pena.

Ele tenta acertar, ele sofre pra aceitar.
Ele ama loucamente.

Depois de tanta ação, ele deita pra dormir.
Ele sonha pra conseguir.
Ele faz e acontece.

Ele acorda pra viver, ele acorda pra sair.
Ele acorda pra fazer valer a pena.
Mais uma vez.

Último Suspiro

Sofre pelo mal que te causam
como injustiça a ser vivida
por obrigação.

Teus atos são por lágrimas.
Sem razão, sem espera.

Corre teus olhos pelas folhas
de árvores secas
não apenas por sombras já inexistentes.

Mas pelo derramado
e já seco sentimento
e já findo pulsar
de um morto coração.

Sem sangue.
Sem bater aparentemente.
Sem ter, nem sentir.
Apenas ao encher de um peito
que não alivia,
mas que o quer de uma vez.

Chegam as horas
e o tempo tedioso sinaliza,
bate, lembra,
tira de mim, esvazia,
pausa, bate,
para, dispara
e mata.

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