Dos Sorrisos

Precisei de sorrisos.
Não acreditava.
Eles nunca me faltavam!
Mas tive que comprá-los.

Na loja de sorrisos,
havia muitas cores e tamanhos.
O vendedor com um grande sorriso me atendeu:
"O que deseja, senhor?"

Grande parte dos vendedores
tinha um sorriso belo e,
aparentemente, verdadeiro.

Uma das vendedoras
tinha um sorriso
amarelo.
E há muito tempo não conseguia vender.

Sorrisos fora da validade
eram doados a pessoas que precisavam muito.
E logo faziam uso de seus "novos" sorrisos.

Eu continuei procurando meu sorriso.
Gargalhadas,
sorrisos grandes, médios e pequenos.
Verdes, brancos e vermelhos.
Mas eu redescobri minha fonte
e não necessitei mais comprá-los.

Alegria!

"Querido Diário"

Marina tinha um diário. Todos os dias deixava seus sentimentos transbordarem e os registrava naquelas tantas folhas rosadas.

"Querido Diário,

Hoje eu briguei outra vez com a minha mãe. Eu fico triste, porque gosto muito dela e não gosto de ver que ela está triste por minha causa.

Boa noite."

Marina sentia que sua relação com a mãe era muito difícil. Não podia deixar de amá-la, mas sabia que não era como devia ser. E a menina ficava muito triste.

"Querido Diário,

Hoje fiz 13 anos de idade, fiquei muito feliz, porque fiz as pazes com a minha mãe e ela me beijou várias vezes. Meu pai veio me ver, mas teve que sair rápido por causa do trabalho dele. Pelo menos esse ano ele veio, estou feliz.

Boa noite."

Os pais de Marina se separaram logo que ela fez oito anos. Não entendia bem tudo o que estava acontecendo e também não sentiu muito, porque Alberto não era um pai presente.

"Querido Diário,

Puxei os cabelos da minha melhor amiga hoje no colégio. Sabe... Ela começou a espalhar que um menino tava olhando pra mim e que a gente tava namorando. Não gostei dessa brincadeira, então a gente brigou. Mas eu tô triste, porque gosto tanto de Claudinha. Ela é a irmã que eu não tenho.

Boa Noite."

"Diário,

Claudinha acabou de ligar pra mim pra me pedir desculpas. E eu também pedi desculpas pra ela. Agora a gente tá bem de novo e eu tô mais feliz.

Boa noite."

Cláudia é a melhor amiga de Marina desde que entrou no colégio. Não se desgrudam, fazem tudo juntas: brincam, conversam, passeiam, estudam, enfim, são verdadeiras irmãs. O maior defeito de Cláudia, para Marina, é que ela fala mais do que realmente acontece.

"Querido Diário,

O Bruninho é o menino mais lindo do mundo. Ele tá uma série na minha frente, mas eu sei que ele olha pra mim, às vezes, no intervalo. Eu tenho um pouco de vergonha, mas eu também olho pra ele. É dele que eu gosto, por isso fiquei com raiva da Claudinha, quando ela espalhou que eu tava com o Sandrinho. Você me entende, né?

Boa tarde."

Bruno era um menino que chamava a atenção da maioria das meninas do colégio e de alguns meninos também. Era um dos mais populares, falava com todo mundo e não era do tipo metido. Era um bom rapaz. Marina não teve como não se apaixonar.

"Querido diário,

Sonhei com tanta coisa boa essa noite: meu pai e minha mãe juntos; meu pai me percebendo mais como sua filha; minha mãe mais feliz e parando de descontar tudo em mim; eu e a Claudinha cada vez mais amigas e morando juntas, quando chegasse o tempo da faculdade; e o Bruninho... Que lindo! Sonhei que a gente ficava junto pra sempre. Parece história de filme, mas tudo isso me deixou tão feliz. Amanhã vou falar com o Bruninho. Espero que ele converse comigo. Estou tensa.

Beijo, diário,

Boa noite."

Marina sempre sonhava com essas coisas que seriam tão boas para ela. Era sonhadora demais sim e não se envergonhava por isso. Gostava de ser assim, porque é assim mesmo que ela era feliz.

De agora em diante, a vida de Marina poderia ser um pouco mais diferente. Escreveu mais umas duas vezes no diário e o guardou. Escreveu 12 diários, muitas páginas rosadas contando sua vida. Agora ela namora o Bruninho, seus pais não voltaram, Cláudia ainda é a sua melhor amiga.
E a esperança de a vida ser cada vez melhor não acaba. Não acaba.

Sobre Reconhecimento

Não te conheço.
Nao me conheço.
Esqueço a todos
e reconheço os meus erros.

Desconheço tua face.
Conheço tua casa.
Reconheço teus pertences.
Então me reconheço:
Pertence teu que não me pertence.

Não me cabem mais reconhecimentos vãos
e, em cada vão de minha alma,
está um contentamento (não descontente) reconhecido.

Nos reconheço e desconheço sermos dois,
porque nos conheço como um
e como um ficamos reconhecidos por todos.

E, como um, somos um,
enfim.

Um Romance

Um romance de verde
no aguardo, na tensão
Um romance de vermelho
no sangue, no coração
De azul na ternura
De rosa na candura

Me aguardem as palavras certas
Me ajudem as pessoas espertas
Me esqueçam as manias despertas

Um romance de cores fortes
De claro, de escuro
Um romance vivo de sortes
De almas e futuro
Um romance franco
De preto no branco.

Amor!

Das Mudanças

Tive uma ideia,
porque já não posso mais ter idéias.

Todos percebem, todos veem,
porque eles já não vêem mais.

Hoje apenas frequento certos lugares
que antes freqüentava.

Abelhas que viviam em colméias,
hoje vivem em colmeias.

Não existem pêras,
desde que surgiram as peras.

E as mudanças de ontem, de hoje e até as de amanhã não páram,
ou melhor,
não param.

E quem para se perde.

Das Sombras

Uma sombra me pegou
E você nada pode fazer
Não me ajudo, não me ajude

Quero deixar acontecer
Prefiro as sombras, prefiro às sombras
Que venham então. E que me consigam.

Ele está entregue. Ele nada queria desde que Solange partiu. Não suporta o abandono e não quer se livrar dele. Só quer que o respeitem, mas ele é muito querido e vai ser difícil cultivar essa solidão.

Preciso me perder
Porque nada mais eu sou
Quero adormecer às sombras

Não me acordem
Preciso dessa pseudo paz eterna
De quem morre estando vivo

Ele acredita que não há mais saída. Sente que precisa ir ao encontro das sombras e que lá vai encontrar a calmaria. Ninguém acredita nisso, mas ele vai.

Deixem que eu vá
Lá encontrarei a felicidade que busco
Tenho certeza

Vou ao meu encontro
A escuridão me reserva surpresas
E ela está lá chorando a me esperar.

Ele foi. Encontrou a escuridão. encontrou o fim dessa agonia, mas não significa dizer que encontrou a morte. Solange estava lá... também à sombra. Arrependida, derramando todo o sofrimento desde que havia partido. Essas sombras vinham dela mesma, que precisava daquele amor. Era tudo que queria. Ele não conseguia se fazer de difícil, afinal foi isso que ele buscou. E não perdeu tempo.
Fez-se a luz.

Carência

Carece de fé pra acalmar o coração.

Perdeu todas as suas esperanças quando ele se foi. Ou pelo menos acreditava que tinha perdido, o que não sabia é que nunca teve fé.
Talvez tenha sido mais difícil por ter perdido o que nunca teve.
E perdeu.

Carece de um café pra esquentar o coração.

Sempre pensava que um café curava tudo. Desde falta de tempo até uma sede. Nunca encontrou água, porque não se queria purificar. Estava sempre desperto, mas não acordado.

Carece de um remédio para curar o coração.

Viveu como sabia, de uma forma que não podia. Não buscou caminhos diferentes e se acomodou com o que era possível alcançar. Tentou. E foi abandonado.

Carece de um sorriso pra recuperar o coração.

Nada de companhia. Amigos? Família? Não cultivou, não cuidou. Perdeu! Agora sozinho, falta amor. E ele não o tem mais.

Carece de um amor pra reanimar o coração.

Não tem nenhum amor. Perdeu litros dele e hoje mendiga por uma gota. Arrependimento não mata, ele bem gostaria. Nada mais é como ele quer.

Carece de um coração!

Do Telefone

Acordei às cinco horas da manhã. Era hoje. Sabia que ele iria ligar. Aguardei. A ansiedade consumia tudo e me consumia ainda mais que tudo. Às seis horas levantei do sofá e fui tomar banho. Afinal, a qualquer sinal, eu já estaria pronta.
Às seis e quinze eu estava banhada, vestida e de volta ao sofá. Comecei a me maquiar e continuei a esperá-lo. Às sete horas horas o telefone tocou. A princípio não acreditei, mas logo corri para atendê-lo.
- Alô?
- A Dani está?
- Como?
- A Dani. Ela está em casa?
- É... Desculpe, mas você ligou pra o lugar errado.
- Ah, me desculpe você, sinto muito.
- Não... Tudo bem.
- Tchau.
- Tchau.
Desliguei o telefone com uma decepção forte no peito. Mas ele iria ligar. E eu continuei a esperar. Tomei café, almocei e nada.
Não entendia porque ele não queria me ligar. Ele tinha prometido e eu estaria ali, pronta, esperando por ele.

Há dois dias Carla tinha conhecido o Marcelo. Foram à festa de um amigo que tinham em comum, o Jorge. Era aniversário dele e tinha preparado uma festa em sua casa para todos os amigos, todas as pessoas próximas. Marcelo chegou cedo e Carla, como sempre, bastante atrasada. Assim que olhou para Marcelo, sentiu aquelas coisas estranhas que sempre sentiu quando se apaixonava. Detalhe: ela não se apaixonava desde os 18 anos. Teve três namorados: Aos 7 anos, o Gustavo, menino bonitinho que estava uma série na frente dela. Esse namoro durou uma semana. Aos 15 anos, o Rafael, um vizinho de 14 anos que havia acabado de se mudar para a sua rua. Não mais que três meses. Aos 18 anos, Carla se apaixonou por Carlos, um rapaz de 25 anos que era seu novo professor de dança. O namoro durou três anos e Carla sentiu muito quando tudo acabou. Ele iria se mudar da cidade e ela não queria abandonar o lugar onde viveu por tanto tempo. Brigaram. Carla hoje tem 35 anos e sabia que estava apaixonada. Marcelo é um advogado de 45 anos, muito charmoso e interessante. Carla estava apaixonada e parecia a mesma menina que esperava a hora do recreio para ver o Gustavo, que ansiava pela hora em que Rafael fosse passar na sua casa voltando da aula ou, ainda, que esperava impaciente a hora da suas aula de dança para ver o Carlos.
E ela continuava esperando...

Vi o relógio dar as 13, 15, 18 horas e nada de o Marcelo ligar. Nada de o telefone tocar. Nada. Nada.
Exatamente às 19:53min, o telefone tocou mais uma vez. Mas não era o Marcelo.
- Alô?
- Oi.
- A senhora Carla de Souza se encontra?
- Sim, sou eu.
- Olá senhora. Meu nome é Roberta e eu gostaria de estar fazendo uma pesquisa sobre cartões de crédito com a senhora. A senhora estaria tendo algum tempo?
- Não!
- Mas, com essa pesquisa, a senhora estaria...
Desliguei o telefone. Esperei muito tempo até me lembrar do meu celular. Eu não havia dado o número do residencial para o Marcelo. E, quando fui conferir, percebi o tempo que perdi. Havia 34 chamadas não atendidas dele. Depois de tanto esperar, eu já estava cansada. Pelo menos sei que ele também me quer, amanhã ligo e explico o que houve. Agora eu sei que vou ser feliz.

Do Espelho

Todos os dias eu me olhava naquele espelho. Todos os dias eu procurava descobrir um pouco mais de mim. às vezes até conseguia. Eu parecia estar preso àquele objeto e sentia sempre a necessidade de conversar comigo.
Claro que, mais cedo ou mais tarde, me chamariam de louco. E por que não ser? Sou louco pra me conhecer e me entender. É, eu não me entendo. Sonho com todo tipo de coisa e não sei o que querem me dizer. Nada tem explicação para mim. Nem eu. Tantas dúvidas, tantos medos, tantos preconceitos bobos. Tanta preocupação sem necessidade. Tanta falta de preocupação com o que realmente se precisa. Realmente não entendo. E talvez nem deva tentar.
E o espelho onde me guardo vai ao chão. Agora estou partido em milhões de pedaços. Minhas partes não se encaixam mais, eu transbordei. Transbordei e agora sou milhões. Não caibo mais em mim e nem quero.
Prefiro continuar transbordando e tentando me descobrir. E, agora que tenho mais espaço, deve ficar mais fácil.
Meus reflexos.

Sem Forças

Ela nunca se recuperou daquela queda. Não sabia se doía mais o fato de ter sofrido ou o de não querer mais viver. Já fazia um tempo que aquela vida não satisfazia nenhuma de suas necessidades. Mas ela não tinha mais forças pra se levantar. E também não parecia que queria.

Das músicas, as mais tristes. Das flores, as mais murchas. Dos filmes, os mais dramáticos. Dos sonhos, os mais desacreditados. Dos olhos, os mais pesados. Das lágrimas, as mais salgadas. Dos anos, os menos vividos. Dos pensamentos, os mais pessimistas. Das palavras, as mais cortantes. Das companhias, as menos presentes. Dos pecados, os mais esquecidos. Da vida, a mais perdida.

É, acabou-se a vida para ela. E de que lhe adiantava viver, se já vinha sendo morta antes do fim? Passou-se um tempo e, como era de se esperar, ela tentou encontrar um caminho, ela tentou viver. Juntou todos os retalhos de força que ainda tinha, mas já não eram suficientes. Era tarde pra lutar, muito tarde.

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